Histórico

Um Breve Histórico sobre a Medicina de Família em São Paulo

Dra. Ir. Monique Bourget

Coordenadora do PSF Santa Marcelina, SP

Diretora da Formação e Capacitação da SBMFC

Para contar a história da medicina de família e comunidade aqui em São Paulo é preciso lembrar alguns nomes importantes que marcaram essa história. Antes mesmo de começar o consultório do médico de família tirado do modelo cubano, as irmãs Marcelinas e em particular Ir. Josefina, médica, construiram um pequeno consultório com ajuda da própria população e do futuro médico que ia começar atuar lá mesmo, no Jardim Copa, em Itaquera, perto do Hospital Santa Marcelina. Foi uma primeira iniciativa para tentar mobilizar alguns profissionais e conseguir mostrar para os residentes o lado da atenção primária. O primeiro médico que atuou na unidade foi o Dr. Gilberto Natalini.

Seguiu uma segunda experiência implantada no governo Quercia e instaurada em parceria com o Hospital Santa Marcelina que foram os consultórios médicos conforme o modelo cubano. Atuaram vários médicos: Drs Marcia, Oscar, Isa, Georgina, Alodia, Dragan, Gerson, Rosa chegando ao número de 17 distribuídos na zona leste desde 1987. Apesar de alguns terem sido muito queridos pela população a maioria não conseguiram o efeito esperado. O governo do Estado não dispunha de instrumentos adequados para acompanhar de perto o andamento do projeto. Chegou o final do ano 1995 e a Secretaria Estadual de Saúde quis extinguir o projeto. Ao mesmo tempo, o Dr. Francé, diretor do Núcleo 3 estava enfrentando a carência de profissionais médicos em várias unidades da periferia e Ir. Josefina, que, tomando conhecimento da proposta do Ministério Federal do Projeto da Saúde da Família que começou a ser implantado no Nordeste, sonhou com a possibilidade de começar um projeto piloto na área carente da cidade Tiradentes onde a Igreja desenvolvia atividades pastorais.

Prontamente, foi montada uma comissão liderada pela Dra. Eliane Dourado que reuniu representantes dos médicos de família (Dra Rosa e Dr. Gerson), Dr. Francé, diretor do Núcleo 3- zona leste- e as irmãs Marcelinas, Ir. Josefina e Ir. Monique que, ha pouco chegada do Canadá, trazia a experiência do Médico de Família daquele país. Nasceu uma proposta de uma tripartite (Ministério da Saúde, Secretaria Estadual da Saúde e o Hospital Santa Marcelina) para implantação do projeto da Saúde da Família em 9 unidades básicas:

  • 4 antigos consultórios de médicos de família : Vila Formosa, Costa Melo, Vila Guilhermina, Jardim Copa (alocados para casas alugadas transformadas em unidades básicas)
  • 3 Unidades Estaduais que estavam sem profissionais médicos: Parque Santa-Rita, Jardim Silva Teles, Jardim Fanganielo
  • 2 Unidades, Barro Branco e Dom Angélico, que foram construídas com o financiamento do Ministério da Saúde.

No último dia do ano, 31 de dezembro de 1995, irmã Maria Thereza Lorenzzoni foi assinar no aeroporto de Congonhas, junto ao Ministro da Saúde, o Dr. Adib Jatene, o termo aditivo da primeira parceria para implantação do Projeto Saúde da Família do Município de São Paulo. A liberação das verbas só aconteceu em março de 1996. Foi proposto o início em 9 unidades com 11 equipes que eram compostas por 1 médico, 1 auxiliar de enfermagem e 4 agentes comunitários. As enfermeiras eram ao mesmo tempo gerente, enfermeira de todas as equipes e capacitadores de agentes comunitários. O agente comunitário trabalhava na limpeza e na recepção. Era somente um projeto piloto: muitas ideas prós e contras.

Em 1998 novas unidades foram implantadas com a parceria da Fundação Zerbini na zona Sudeste e na zona Norte. A proposta foi vencendo e dando certo. Assim no ano 2000, duas novas parcerias foram celebradas com a Congregação Santa Catarina e a UNISA na zona Sul com formação de equipes completas: 1 médico, 1 enfermeira, 2 auxiliares de enfermagem, 5 a 6 agentes comunitários por equipe e 1 gerente por unidade e toda uma equipe de apoio administrativo.

O projeto foi se tornando programa e foi se afirmando. Em 2001, no momento da municipalização, já havia mais de 240 equipes de saúde da família. O dr. Eduardo Jorge, então secretario municipal da saúde, propôs cobrir em 60% o município com o PSF. Começou, não teve 100% de êxito mas funcionam hoje no município de São Paulo cerca de 800 equipes de saúde da família em parceria com 12 instituições.

Os frutos dessa implantação são vários e o mais tangível e interessante para a nossa sociedade foi abrir o mercado para o profissional médico. A primeira residência em Medicina Geral e Comunitária, hoje Medicina de Família e Comunidade, iniciada em 1993 no Hospital Santa Marcelina foi a primeira beneficiada. Ela pude ter a partir de 1996 um campo de estágio próprio para a especialidade. O interesse de cativar o profissional desde a graduação se tornou necessário e o internato começou a ter estágio obrigatório nas unidades de PSF. Recebemos vários alunos de outras faculdades como a USP por exemplo. Començaram os fórums de discussões sobre PSF nos vários municípios do interior como também sobre residência médica na área- Medicina de Família e Comunidade- e sobre o envolvimento na graduação. O seminário mais decisivo acredito ter sido o de Campinas em 2001 onde foi sancionada a importância da nossa especialidade diferenciado-a uma vez por todas da medicina preventiva e social. O movimento da abertura de novas vagas de residências em várias instittuições foi desencadeado contando hoje no município com vagas na UNISA, UNIFESP, USP(recente deste ano), e de vários municípios vizinhos: Jundiai, Campinas.

Mas ainda é muito pouco e a luta para afirmar a nossa especialidade e qualificarmos o profissional da ponta é grande. A rotatividade elevada do profissional médico, a falta de identificação com o trabalho e com a comunidade, a falta de `role models`na formação como também o pouco contato no momento da graduação com o trabalho na atenção primária são dificuldades a serem superadas. A congregação dos esforços através da formação de primeiro a Sociedade Paulista de Medicina de Família agora Associação Paulista é fundamental e com certeza, juntos venceremos e conseguiremos tornar a medicina de Família e Comunidade uma especialidade concorrida tanto quanto as outras porque seremos felizes de trabalhar junto a população alimentando a vida e a vida de qualidade.